PIRATAS!!! - Cap. 39
— Mas
por todos os... – antes
que complete a frase
Narval já estava caminhando pelo tombadilho em
direção ao
“pescador”. A Sarresian não escapou
um rápido vislumbre do corpo nu, lindo e
perfeito
de lady Cathéryn deitada de olhos semicerrados
sobre os alvos lençóis
de seda... E, embora ele
ainda não soubesse essa visão iria determinar
o futuro
de Sarresian, pois a partir daquele
instante até seu último suspiro de vida,
seria perdidamente apaixonado por ela.
— O que
está fazendo, homem?
– chega
questionado já sem muita paciência.
—
Pescando, capitão.
– e
assim dizendo deu um tiro em direção
ao mar. O corvo que normalmente o
acompanha dava revoadas sobre a
superfície da água atraindo os peixes
que saltavam tentando abocanhar a
ave. John aguardava o momento certo
e alvejava a
desafortunada e faminta
criatura marinha nesse instante.
E diante do capitão
embasbacado
rapidamente trocou a garrucha pelo
arpão e com precisão
cirúrgica
trespassou o animal e o puxou a bordo.
Um belo e gordo cação!
— Onde
aprendeu a pescar dessa
maneira, Mr. Wisblender?
Enquanto
arrancava o arpão cravado
no peixe respondia calmamente:
— Em
uma ilha, Capitão Narval, em uma ilha.
Tive meses para praticar...
Narval
dá de ombros e retorna a sua cabine.
— O que
aconteceu lá fora?
–
indaga Morgan enquanto se vestia.
— Nem
queira saber. Esta é uma nau
de loucos, todos os dias ocorrem
incidentes bizarros... Mas deixemos isso
de lado, falemos daquele maldito...
—
Sangre. –
completa a pirata.
— Sim,
ele mesmo. Não respondestes as
minhas perguntas, my lady.
PIRATAS!!! - Cap. 38
— Pelas
barbas de Poseidon! Será possível que
não se tenha um minuto de sossego nesta
nau?
Mas que inferno!
– ele
ergue-se de rompante, puxando os
suspensórios por sobre os ombros.
Caminha
rápido e bufante até a
porta e abre-a com violência!
— O que
foi agora?
– a
frente dele Sarresian segura uma arraia
de quase dois metros de comprimento.
— Que
diabo é isso, marujo? Explique-se e seja
convincente, hoje acordei disposto a
fazer o
primeiro que ver pela frente andar na prancha!
Sarresian
engole em seco e fala sem muita convicção:
— Nosso
“naufrago” pescou isto agora a pouco...
— Como
assim, pescou isso? Esse monstro marinho
é grande demais para puxar com uma linha de
pesca a bordo.
— Pois
é, capitão, em verdade,
ele não usou linha...
— Usou
o que então, uma rede?
— Não
senhor...
—
Marujo, abra essa maldita boca e fale
coisa com coisa ou serás tu a isca a ser
pendurada no próximo anzol!!!
Rapidamente Reneger cospe as palavras como se
houvesse tentado engolir um Baiacu-de-Espinho!
— Ele
usou o corvo, uma garrucha e um arpão...
— Como
é que é? Você andou bebendo rum
de novo, seu bêbado miserável?
Alexander!!! Traga
o chicote, temos um
açoitamento esta manhã!
-
berra plenos pulmões chamando o imediato.
Reneger treme de alto a baixo, o
Misericordioso
era conhecido por ter a mão MUITO pesada
no uso do chicote.
capitão, ouça-me, juro por
minha alma imortal
que não ingeri rum desde que o sol ergueu-se
hoje! E é
verdade, se não crê em mim,
veja com seus próprios olhos!
– fala rápido e aflito enquanto aponta a
amurada próxima, onde o velho marujo
de sobretudo
preto surrado faz mira com
sua garrucha na direção do mar.
PIRATAS!!! - Cap. 37
Na manhã do dia
seguinte, sentado a beira
do leito, Narval questiona a racionalidade
de seu ato
e sequer pode pôr a culpa no rum
(“essa bebida vil que transforma homens
dignos em patifes”, como certa vez disse
alguém), pois proibira seu
consumo a bordo.
Enquanto remoía
tais pensamentos sentiu os
braços nus da doce pirata a envolvê-lo e
buscarem o contato da pele de seu peito
másculo. A distinta Lady Cathéryn
aproxima-se voluptuosamente
de seu
captor e sussurra-lhe coisas nos ouvido
que fariam corar uma cortesã
francesa!
Definitivamente: o prazer desconhece o
compromisso diário com os
horários!
Ao longo do dia
Narval abre seu coração
à beldade e inquire sua opinião
acerca de Sangre.
— Aquele miserável
só quer uma coisa
desta existência: ouro! E se quiser encontrá-lo
digo-te
exatamente onde ele haverá de estar!
O capitão inglês
arregala os olhos e a pergunta
brota de seus lábios sem que ele sequer
pensasse
nela:
— Onde?
— Ele vai até minha
ilha! Atrás do meu tesouro!
MEU TESOURO!!!!
A resposta deixa
Narval perplexo!
Como assim, aquela garota tinha uma ilha?
E um tesouro?
— Não
me olhe assim, Narval.
Eu e meus marujos trabalhamos
bastante até você me
capturar...
- a voz dela assume um tom extremamente
sensual na última
palavra...
Ainda
que desconcertado Narval, assente
e inquire:
— Mas por
que crês que ele está indo para lá?
E por que justo agora? Ou isso seria mais um
plano ardiloso da pirata Morgan para
escapar a seu captor?
- o tom de voz do capitão oscila entre o
desconfiado e insinuante. Segura o pulso
esquerdo da pirata com força e ela
responde com um ato de volúpia:
lambendo-lhe as falanges
que a prendiam.
Ele a
derruba sobre a cama
e a beija com ardor, porém
o interlúdio amoroso é
insensivelmente interrompido
por batidas à porta.
PIRATAS!!! - Cap. 36
Sarresian chama John Crow a um canto e
entabula uma
conversa deveras amistosa:
— Não sei o que você andou falando ao
Capitão, seu
infeliz, mas pode acreditar:
gosto muito dos meus polegares onde
eles estão e
não pretendo deixar NADA
mudar isso. Capisce?
— Capisco, Reneger, capisco.
O corvo olha fixamente para Sarresian, seus
olhos brilham
como tochas luzidias e antes
que o ex-nobre possa abrir a boca para dizer
algo, a ave solta um grasnido alto e sonoro
que ecoa do mastro ao porão, de proa a
popa!
John tira um pequeno naco de carne crua de
um dos bolsos
do jaquetão surrado e atira
por sobre o ombro. A ave apanha o alimento
no ar
com uma bicada certeira. E enquanto
se alimenta o fogo em seus olhos
aparenta amainar.
— Bicho maldito! – esbraveja Mèrton.
Eis o início de uma “linda amizade”...
Os dias
transcorrem em relativa tranquilidade.
Narval já com metade da missão concluída
pensa em como dará cabo da que falta: Sangre.
Morgan
já mais acostumada ao navio inglês
faz longos passeios ao luar nas noites mornas
que se seguem.
Aos poucos aquela animosidade inicial
entre os dois capitães
cede e já conseguem
entabular um diálogo que não termine em
objetos voando ou
punhais cravados em
locais inoportunos (como narizes de
imediatos ou orelhas de marujos).
Aos poucos certa simpatia nasce
entre ambos, sentimento este que
evolui lentamente para
uma amizade mais profunda...
Alguns
meses no mar dão a medida
exata de tempo para que as pessoas
se conheçam de
fato.
Até que
o inevitável acontece em uma
noite quente de lua cheia...
palavras sussurradas,
afagos, toques,
uma mão firme, um roçar suave,
o beijo ardente em meio a
braços
entrelaçados, culminando
em uma avassaladora noite
de desejos ardentes
e
instintos saciados...
PIRATAS!!! - Cap. 35
— Serás o responsável por nosso
novo tripulante, Mr. Johnny Wisblender.
Responderá por qualquer ato ou palavras
que partindo dele porventura possam
comprometer nossa missão. Fui claro?
— Claro e cristalino, meu capitão. Posso
indagar o porquê
de haver me escolhido
para tão honrosa missão?
— Honrosa? Sei... Mas se queres mesmo
saber, apesar de
não ser de tua alçada
questionar as ordens de teu capitão,
eu o direi: tu o
trouxestes a bordo e o
apresentastes a todos entusiasticamente.
Que fique bem
claro, marujo:
se esse pirata furtar um gole de rum
a bordo do meu navio, eu
penduro
vocês dois pelos polegares no alto do
mastro da mezena.
Entendido,
marinheiro?
— Sim, senhor. Perfeitamente, senhor.
Pelos polegares,
senhor!
Narval olha aquela figura empolada a
sua frente, sem a
menor noção do perigo,
balança a cabeça e esbraveja ao imediato.
— Tire esses dois da minha frente
agora mesmo, Alexander,
antes que eu
mude de ideia e atire-os aos tubarões !!!
— Ouviram o capitão. Sumam, daqui!
Sarresian e John Crow rapidamente
tomam o caminho
do tombadilho.
— Perdão, senhor, mas não fostes muito
severo com Sarresian?
Lembre-se que
durante o motim ele salvou vossa vida...
— Sei bem disso, Alexander, meu velho
amigo, mas necessitava deixar bem claro
àquele rato do mar que em meu navio
ele não teria qualquer oportunidade
de aprontar alguma esparrela à sorrelfa!
— Compreendo.
— Mais tarde e discretamente, falarei
com Reneger e
esclarecei a situação a ele.
Enquanto isso do lado de fora, o corvo
voltara ao ombro
de seu dono. Os marujos
ainda cogitavam receitas, modos de preparo,
lambendo os
beiços e salivando
a cada olhadela ao pássaro!
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